*A Árvore . . .


*Goiabeira dá goiaba


Os filósofos e teólogos da Idade Média ocidental empregavam a palavra"qüididade" para definir a realidade tal como ela é.

"Qüididade"significa: a essência de uma coisa, as condições que determinam uma realidade particular, a qualidade essencial de um determinado ser. Em resumo, quer dizer que uma coisa é o que é, apenas isso.Esta visão é correspondente à abordagem taoísta da realidade. Tudo isso pode ser sintetizado numa frase de grande profundidade que, por mais complexa que seja, vale a pena ser memorizada. A frase é:"Goiabeira dá goiaba". Parece piada? Não é. Isso é fundamental! Na prática, nós não temos noção real do que é qüididade. Ignoramos esta palavra. Pior, não temos este conceito em nossa vivência diária. Não compreendemos em profundidade que tudo é o que é e que goiabeira dá goiaba.Muitas vezes sofremos por não aceitarmos a realidade. No fundo gostaríamos que a realidade fosse diferente, e do modo que nós consideramos melhor.Os sábios não ficam pensando como as coisas poderiam ou deveriam ser.Não lamentam que as coisas não sejam como eles gostariam. Em vez disso, afirmam a realidade: "É assim!". Pronto.Somente com a percepção da realidade e com sua afirmação é possível atuar de modo efetivo porque estaremos lidando com circunstâncias reais e não com quimeras. Toda e qualquer atitude deve ser tomada em função da realidade, da situação real do presente e não em função do passado consumado ou do futuro incerto. Quando se diz "é assim que é"não se busca resignação, mas a compreensão clara da realidade para, a partir dessa realidade, tomar uma atitude.

*A copa não existe sem a raiz


Uma árvore não é apenas o que se vê externamente. Do mesmo modo, o ser humano não é só aquilo que se apresenta aos nossos olhos. A árvore tem raízes escondidas debaixo da terra, e o homem tem "algo" escondido dentro de si que são suas mais profundas raízes.A copa e o tronco são as partes visíveis da árvore. Correspondem ao que as pessoas enxergam de nós, é a nossa aparência, o que queremos que as pessoas conheçam da gente.As raízes ficam abaixo da superfície da terra. É a parte obscura e"suja" da árvore. Nós, seres humanos também temos uma parte que escondemos das pessoas. Todos os nossos impulsos secretos, nossas vergonhas, nossos medos, nossos pensamentos "sujos", nossas vontades inconfessáveis e as nossas fraquezas são ocultados - consciente ou inconscientemente - na sombra da psique. Essa parte é natural e um componente necessário na formação da nossa personalidade, tanto quanto a raiz é necessária para a árvore como um todo.A árvore é um conjunto integrado. O ser humano também deve integrar os aspectos superiores e inferiores. A árvore é completa, é plena. Do mesmo modo, o ser humano equilibrado não busca a perfeição, já que é uma mutilação, mas sim a plenitude. O homem só é pleno quando legitima seus impulsos subterrâneos e integra harmoniosamente os aspectos conflitantes da sua personalidade.

*As folhas caem, o tronco fica

Ao desenhar ou imaginar uma árvore visualizamos o tronco e a copa cheia de folhas, mas não pensamos nos galhos que se escondem sob o volume da folhagem. Sem perceber, nós valorizamos mais as folhas, as flores e os frutos e, com isso, os galhos são esquecidos. As folhas,as flores e os frutos são importantes, sem dúvida, mas são passageiras, vêm e vão a cada ciclo do ano. As únicas coisas que permanecem - e crescem - são os galhos e o tronco. A essência da árvore é o tronco e os galhos.Uma pessoa também tem folhas, flores e frutos. São suas roupas, sua beleza física, seus acessórios, seu carro, a maquiagem, os perfumes, o produto da fábrica onde trabalha. Também são seus títulos, seu reconhecimento social, seus conceitos, seu discurso, as obras artísticas e científicas que produz. Mas essas coisas não são a pessoa em si.A estrutura ética e moral é o tronco de uma pessoa. São os valores e os objetivos interiores mais elevados que dão sustentação à vida de um ser humano digno. Beleza, recursos materiais e resultados são como flores, folhas e frutas da árvore, que merecem ser apreciados, mas não são fundamentais para a vida da árvore. A falta de beleza, de recursos ou de resultados não compromete a existência de uma pessoa elevada,mas a ausência de valores como ética, honradez, justiça, honestidade,respeito humano, firmeza, coragem, entre outras coisas, é como ser uma árvore sem tronco. Esses valores são permanentes numa pessoa evoluída e sábia porque ela sabe que as folhas caem, mas o tronco fica.

*O tronco cresce em camadas


No Museu Florestal da cidade de São Paulo, está exposto uma fatia de um tronco de uma árvore centenária. O corte do tronco possui um pequeno círculo no centro circundado de centenas de anéis de diâmetros cada vez maiores. O centro corresponde ao primeiro ano de vida da árvore e cada um dos anéis à sua volta corresponde a um ano de sua existência.Uma camada reveste a outra. É dessa forma que a árvore cresce e o tronco fica cada vez mais encorpado. Na vida humana, acontece a mesma coisa. Nosso desenvolvimento acontece em acúmulos constantes de informações, de experiências e de conclusões.O ego corresponde à primeira camada que fica no centro do tronco e a consciência cada vez mais elevada corresponde às camadas maiores do tronco. O ego só pode ser transcendido se houver uma consciência maior do que ele.Quando só pensamos em doenças, em problemas e infelicidades, ficamos na camada menor, não vamos para as camadas maiores do tronco. Mas quando conseguimos pensar que os problemas fazem parte da vida, que aquilo que está nos acontecendo não é a nossa vida como um todo, mas apenas um momento da nossa vida, que as dificuldades não vão durar para sempre, as coisas mudam de figura. Isso é ampliar o ângulo de visão, é ver as coisas dentro um continente maior, dentro de uma camada superior.

*A fruta cai no chão para gerar uma nova árvore

Depois que amadurece, a fruta não fica na árvore. Em pouco tempo, ela se desprende do galho e cai. O I Ching - O Livro das Mutações, ao abordar esta fase da Natureza, fala de uma "conexão entre a decomposição e a ressurreição" e diz que "é preciso que o fruto apodreça antes que a semente nova possa se desenvolver".Para os sábios chineses, a decomposição da fruta representa a conclusão de uma fase e o início de uma nova etapa da vida da árvore.O apodrecimento da fruta não significa término de tudo, mas uma transformação necessária para que o novo surja. É essa transformação que permite que a vida se renove e se perpetue. Dentro do pensamento oriental, esta regra vale tanto para a árvore quanto para o ser humano.Não temos plena compreensão do que são ciclos naturais quando se tratada nossa própria vida. Muitas vezes, mantemos uma determinada situação por apego, hábito, teimosia, dependência, comodismo ou medo de arriscar e mudar. Em muitos casos, agimos como se fôssemos uma fruta madura que não quer se desprender da árvore. A transformação é inevitável, é a lei da vida.Uma pessoa que tem consciência disso não se deixa levar por pensamentos negativos quando percebe a realidade transitória da sua vida. Não se desanima pelo fato de que a juventude, o vigor e a capacidade intelectual um dia entrarão em declínio e não terá a eternidade para conquistar tudo o que sonha ou para consertar o mundo.Para uma pessoa evoluída, deixar sementes é mais importante do que comer os frutos e a desintegração não a amedronta.

*A árvore começa com a semente


Na Natureza, a semente gera um broto, o broto se transforma numa muda,a muda se transforma numa árvore, a árvore dá frutos e os frutos produzem novas sementes. O comportamento humano tem paralelo com este ciclo natural. Para os taoístas, tudo o que o ser humano faz começa com uma intenção, que seria correspondente à semente, e tudo tem um resultado, que seriam os frutos. Os mestres chineses afirmam que o ser humano está inserido num ciclo que pode ser virtuoso ou vicioso e ensinam que este ciclo tem a seguinte dinâmica:A intenção leva a uma ação, a ação cria um hábito, o hábito determina um modo de vida e o modo de vida gera um carma.Num sentido mais amplo e isento de conotações metafísicas, carma pode ser entendido como conseqüência ou efeito. Dentro do paralelo com a natureza, a intenção é a semente que dá origem à árvore e o carma (ou conseqüência) seria correspondente ao fruto que esta árvore produz.Boas sementes e intenções corretas geram boas árvores e como conseqüência podemos viver tranqüilos debaixo das suas copas com muita sombra e água fresca. E mais: quando se escolhe a boa semente, quando se tem intenções corretas, a dinâmica do ciclo se torna criativa,virtuosa, e conseguimos viver um estado de paz interior e de serena felicidade durante todo o processo, em todas as circunstâncias.Afinal, todas as situações da nossa vida, a qualquer momento, são necessariamente conseqüências. São frutos que começaram a partir de uma semente.


*Texto retirado do Livro: A Sabedoria da Natureza/Roberto Otsu.

Um comentário:

  1. hi!adorei tudo seu blogge é maravilhoso, parabens!

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